Reproduzo abaixo uma crônica do professor da PUCRS e jornalista do Correio do Povo, Juremir Machado, sobre as revoluções que por vezes assolam o jornalismo. O texto foi publicado na edição do dia 21 de junho de 2011. Vale a leitura.
Novo jornalismo
Juremir Machado da Silva | juremir@correiodopovo.com.br
Como sou professor, doutor em Sociologia pela Sorbonne e crítico de mídia, presto muita atenção nas mudanças do jornalismo. A cada 30 anos, temos um novo “novo jornalismo”. Tudo o que não se podia fazer antes, vira regra. Em televisão, não faz muito, era proibido errar ou improvisar. Tudo era formal. Em caso de erro do apresentador, dizia-se “desculpe a nossa falha técnica”. Agora, feita uma revolução, errar é legal. Bacana mesmo. Os apresentadores até ensaiam alguns erros. Ser informal é a nova forma. Ficar sentado é coisa velha. Todo mundo deve ficar em pé. Ou escorado em alguma coisa. É uma mudança sensacional. Alguns ainda tentam se adaptar.
Antes, o jornalista deveria manter distância crítica do fato e do entrevistado. Mudou tudo. A norma agora é participar. Entramos na era do repórter participante. O cara vai a uma feira nordestina e come buchada de bode. Depois de alguns segundos de hesitação, diz: “Hummm… Gostoso, gostoso mesmo”. Vai ao mercado de Pequim e come centopeia frita: “Hummm… Gostoso, gostoso mesmo”. Vai à Coreia do Sul e come cachorro: “Hummm… Gostoso, gostoso mesmo”. A onda é essa. Repórter tem de mergulhar, saltar, correr, patinar, malhar e cantar. Tudo que o objeto da reportagem faz, o repórter precisa fazer também. É o jornalismo de imersão. Cada “matéria” deve mexer com as sensações, pôr o jornalista em cena, torná-lo protagonista da coisa. O jornalista pratica agora o que os antropólogos chamam de “observação participante”. Uau!
Essa revolução vem sendo levada a sério. Eu me interesso pelos casos mais expressivos dessa mutação, aquilo que se costuma chamar de “casos de escola”, o que resume uma tendência. A repórter Edith Zimmerman, da revista americana GQ, conta em reportagem de capa e quatro páginas como terminou sua entrevista com o ator Chris Evans, o novo “Capitão América”, na cama com o entrevistado. Isso é que é jornalismo participativo e cidadão. A justificativa da repórter para a experiência é irrefutável: “Não há do que reclamar. Ele é famoso e atraente”. Estou com ela. Como deixar de ir para a cama com alguém famoso e atraente? Seria uma traição aos leitores. Graças ao impecável senso profissional da moça, nenhum ângulo ficou de fora. O que não se faz pelo leitor? Quantos prêmios ela vai ganhar com esse “furo”?
O Brasil largou na frente. E ainda moralizou a situação. Apostou no telejornalismo de casal. Assim, os apresentadores podem discutir as notícias na cama sem provocar escândalos. O problema é que isso, segundo alguns especialistas, tira um pouco da essência do jornalismo: a novidade. Em contrapartida, acrescenta um componente decisivo: a experiência. A revista GQ faz parte, depois desse lance radical de sua repórter, da vanguarda do jornalismo mundial. Em jornalismo, como se sabe, algo que inova tende a ser imitado. Já me escalei para fazer uma matéria de capa aqui para o jornal com Ana Paula Arósio e Cléo Pires. Se não for possível, embora contrariado, faço com a Deborah Secco mesmo ou até com a Luana Piovani. Não discuto escala. Participar é comigo.
Disponível em: http://www.correiodopovo.com.br/Impresso/?Ano=116&Numero=264&Caderno=0&Editoria=120&Noticia=307488



































